Qualquer pessoa que consome vinho com alguma regularidade sabe que o bom Malbec está na Argentina. De fato, esta uva de origem francesa, ainda cultivada na região de Cahors, se deu tão bem em terras argentinas que muitos pensam se tratar de uma uva autóctone e o consumidor pouco atento, por segurança, quase sempre busca vinhos argentinos elaborados com ela.
Acontece que a região de Mendoza, onde está concentrada quase toda a produção de vinhos finos do país, é uma das maiores zonas vitivinícolas do mundo, e, por esta razão, a diversidade de solos e microclimas favorece o cultivo de outras variedades de uvas, como a Syrah, Cabernet Sauvignon, Tempranillo e Chardonnay, para ficarmos apenas entre as mais bem sucedidas. Fora de Mendoza, outras regiões se destacam, como a Patagônia e seus novos Merlot e Pinot Noir, e as províncias de La Rioja, Catamarca e Salta, no extremo norte do país, com seus vinhedos de altitude e onde a uva mais cultivada é a branca Torrontés. Depois de provar quase todos os tintos de grandes produtores de Mendoza e garimpar também os vinhos mais destacados de outras regiões, segue meu Top 5 de tintos argentinos “não-Malbec”:
1- O.Fournier Syrah 2004 - O espanhol José Manuel Ortega Fournier produz grandes tintos de corte em sua “nave espacial” em Mendoza e é um dos que mais sabem trabalhar a uva Tempranillo em solo argentino. Curiosamente, seu vinho ícone e, para mim, o melhor deles, é um monovarietal Syrah. É um vinho opulento, musculoso, no melhor estilo Novo Mundo.Vinci, US$ 159,50.
2- Viña Alicia Cuarzo Petit Verdot 2005 – Tinto de bastante extrato, com uma cor quase negra. Nariz complexo, predominando as notas de especiarias e aromas terrosos. Algo tânico, com equilibrada acidez, é um vinho para guardar por mais um par de anos. Decanter, R$ 223,00.
3 – Chacra 32 Pinot Noir 2006 – Em 2004, o italiano Piero Incisa della Rocchetta, dono da grande estrela toscana Sassicaia, adquiriu alguns vinhedos abandonados no Vale de Rio Negro, no extremo norte da Patagônia, e convidou o enólogo dinamarquês Hans Vinding Diers, adepto do sistema biodinâmico, para o projeto de vinhos artesanais na Argentina. O Chacra 32 é elaborado a partir de 2,2 hectares de vinhas datadas de 1932, e tem uma produção limitada a pouco mais de 7 mil garrafas/ano. Antes de provar este vinho, torcia o nariz para a idéia de Pinot Noir produzido na América do Sul. Nada como uma degustação às cegas para mudar minha opinião! Foi considerado o segundo melhor entre 9 rótulos, quase todos de grandes produtores da Bourgogne e Califórnia. Como no Brasil segundo lugar é o mesmo que o último, devo dizer que o primeiro lugar foi um Richebourg do Domaine de la Romanée-Conti, que deveria ser hors concours. Expand, R$ 420,00.
4 – Laborvm Tannat 2005 - A uva que é a mais cultivada no vizinho Uruguai também se aclimatou muito bem na altitude de Salta, onde é muito usada em cortes com outras variedades. A linha de vinhos Laborvm, da bodega El Porvenir de los Andes, é uma das melhores e mais regulares da região em termos qualitativos, com um Torrontés e um Syrah também excelentes. Seu Tannat é redondo, com ótima acidez e álcool muito bem equilibrado. Porto Leblon, R$ 125,00.
5- Desierto Pampa Blend 2006 - Vinho top de linha da nova Bodega del Desierto, única vinícola da província de La Pampa e que conta com a a consultoria do enólogo Paul Hobbs. Este corte das variedades Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc se mostrou incrivelmente equilibrado e harmônico, apesar de seus 14.9% de graduação alcoólica e estagiar por 20 meses em barricas francesas e americanas. Também produz bons varietais de Cabernet Franc, Syrah e Viognier, mas o melhor deste produtor é mesmo o Blend. Infelizmente, ainda sem importação no Brasil.



Identifiquei-me com o “consumidor pouco atento”, pois tb pensava ser a malbec uma “especialidade” argentina. Bem senso comum. ‘Bora providenciar a importação do blend da Desierto, caro amigo?